domingo, 7 de setembro de 2008

Cadê o audiovisual nos blogs?

Os blogs jornalísticos são, na maioria das vezes, conduzidos por pessoas que gostam de escrever, discutir, ler e por aí vai. Alguns podem até se interessar por fotografia, vídeo e alguma experimentação gráfica, mas o que se vê normalmente são “páginas” e “páginas” de texto...

Nada contra escrever, nada. Mas essa preponderância da informação escrita nos blogs é um certo desperdício de possibilidades outras de narrativa, sejam jornalísticas ou não. Acredito que esse seja um espaço importante para criar formas instigantes de relatos, aproveitando a tão alardeada multimídia na internet. Não estou pensando em transferir a linguagem do telejornal, por exemplo, para o blog jornalístico. Acho que uma linguagem menos formatada estaria mais de acordo com as condições técnicas de produção de um blogueiro e produziria uma mensagem mais distante da idéia da TV de enunciadora absoluta e poderosa. O blog, mais subjetivo e transparente, pode se aproveitar bastante das possibilidades de captação audiovisual digitais para começar a esboçar linguagens que não reproduzem na tela a lógica do papel, como vem fazendo até hoje o jornalismo digital.

Ainda que os vídeos digitais “caseiros” sejam marcados, do ponto de vista tecnológico, por uma estética, em geral, “tosca” e por uma baixa qualidade de áudio e imagem, essas condições de produção – com câmera de celular, câmeras compactas e outros gadgets – não devem ser ignoradas. Elas permitem uma interação diferente com o fato jornalístico, já que o objeto em uso para captação da cena se camufla no cenário dominado por outros gadgets. O observador não fica tão em destaque, o que, muitas vezes, é intensamente desejado pelo jornalista, que pode encarnar o papel de voyeur. A imagem “tosca” pode ter menos potência visual, mas traz embutidas as novas condições de produção midiática. Além disso, o imperfeito e o tremido desses vídeos lembram a idéia da câmera na mão. Essa estética reforça a idéia de que o repórter esteve no local do fato.

O site do jornal Extra, por exemplo, na ocasião da operação “Uniforme Fantasma” da Polícia Federal em Magé, no Estado do Rio, veiculou vídeo feito com uma câmera compacta pelo repórter Marcelo Gomes que cobria a operação. As imagens mostravam populares aplaudindo, gritando e protestando em frente à prefeitura local, enquanto a polícia prendia os acusados e apreendia documentos e computadores. Nenhuma voz em off ou repórter na frente da câmera. A cena filmada deu a impressão de se estar assistindo à própria situação. O vídeo, acompanhado por uma breve legenda, mostrava o clima de revolta local melhor do que qualquer matéria escrita ou telejornalística.

Envolvendo nesse movimento diferentes profissionais que dominem as ferramentas audiovisuais, poderemos estar mais perto de ter blogs feitos por pessoas que gostem de pensar imagem e texto juntos para uma comunicação inovadora. Videomakers deveriam começar a postar de vez em quando...

Um comentário:

Jorge Antonio Barros disse...

Eu juro que não tinha lido esse belo texto quando concebi a TV Repórter de Crime. Mas bem que poderia ter lido antes.
abs
jorge